por Leonardo Martinelli
Longe de ser uma ciência específica, a História traz consigo um tipo de compreensão que pode ser aplicada em uma ampla gama de proposições, desde aquilo o que tradicionalmente chamamos de história até as mais diferentes formas de conhecimentos. Conseqüentemente, a própria música acabou por ser compreendida pela perspectiva histórica, já que esta pode tudo abarcar.
Foi a partir da década de 1960 que o entendimento da História como algo quase ilimitado ganhou mais fôlego. Esta idéia foi muito bem sintetizada pelo historiador francês Paul Veyne, que cunhou a seguinte frase: “Tudo é histórico, portanto a história não existe”[1]. Ao contrário do que parece, a frase não nega a importância da História, pois ao afirmar que tudo é histórico, à História é conferido o status de “super-ciência”, presente em todo e qualquer conhecimento, atividade, sociedade ou objeto que tenham ocupado um lugar no tempo. Apenas o futuro lhe escapa, e mesmo assim, muito do porvir poderá ser compreendido pela análise do passado, isto é, por meio do pensamento histórico. A partir deste pensamento que foi derivado um mote muito utilizado pelos historiadores: tudo é história.
Exagero? Num primeiro instante pode parecer, mas se pararmos para pensar, concluiremos que a afirmação faz sentido. Afinal, se compete à História o estudo de tudo o que um dia ocupou lugar no tempo, logo qualquer coisa que se possa imaginar traz consigo uma dimensão histórica. Porém, apesar de tudo ser histórico, nem tudo pode ser historicizável. Isto é, qualquer coisa que possamos imaginar tem uma dimensão histórica, um passado, mas nem sempre é possível reconstituir o percurso pelo qual esta coisa passou. Em outros termos, nem tudo pode ser caracterizado como objeto histórico, pois a História enquanto ciência prevê uma série de condições para que se possa chegar a uma compreensão de um dado objeto.
Que condições são essas? O que é necessário para que algo possa alcançar o status de objeto histórico?
As respostas para estas perguntas residem na compreensão do próprio conceito de História, que num primeiro instante é fundamental compreendê-lo em sua forma geral, para então analisarmos de que forma ele foi e é aplicado à música.
Como a história é feita
Com certa freqüência nos deparamos com a diferença entre os termos história e estória. De uma maneira geral, usamos história para se referir a uma narrativa de algo que concretamente aconteceu, onde falaremos de pessoas, fatos e lugares que, de fato, existiram. Por sua vez, a palavra estória é utilizada para designar uma narrativa fantasiosa, uma ficção, e mesmo que esta utilize elementos da vida real (tal como os famigerados “romances históricos”), não chega a configurar uma história verídica.
Apesar das diferenças existentes entre ambas (por vezes, nem sempre evidentes), uma coisa é comum às duas: a dimensão narrativa. Seja a história, seja a estória, ambas existem apenas quando são contadas. O que muda é o jeito de contar, ou mesmo o estilo literário pelo qual a narrativa será desenvolvida. De certa forma, este estilo reflete as necessidades e os objetivos próprios de cada uma. Porém, apesar de esperarmos certo tipo de redação de um livro de história dos povos americanos, e um outro completamente diferente de uma ficção best-seller, não apenas o objetivo da narrativa, mas também seu público alvo condicionam o modo como ela será desenvolvida. Por isto tão importante quanto o gênero narrativo é o modo pelo qual o contador queira fazê-la, seja este contador um historiador, seja ele um romancista.
Mas, nos concentrando na narrativa histórica, de que forma ela é realizada? Como podemos compreender um determinado objeto historicamente?
Bem, alguns fatores são fundamentais para que a História possa ser feita, seja lá qual for sua proposta.
Uma vez escolhido o assunto a ser estudado – isto é, o objeto histórico (que pode ser uma pessoa, um país, uma instituição, etc.) – é necessário levantarmos quais fatos estão associados a ele. Em sua origem, fato significa qualquer coisa que simplesmente ocorreu, e tomando como referência nossas próprias vidas, constataremos que mesmo o mais comum dos dias está recheado de coisas que simplesmente ocorreram, mesmo que elas sejam tão comuns ao ponto de acharmos que nada aconteceu num dia especialmente tedioso.
Se alguém nos pede para contar a história de nossa vida dificilmente vamos falar de cada vez que escovamos os dentes, de cada vez que se foi à escola, de cada prato de comida mastigado. Apesar de cheia de fatos, nem todos são considerados interessantes para adornarmos nossas biografias. Em geral, falamos de nossos grandes feitos, de nossas melhoras notas na escola, o ingresso numa faculdade, um campeonato que se ganhou, enfim, algo cuja singularidade faz com que ele se destaque da ordinariedade cotidiana. Freqüentemente omitimos aqueles fatos que “podem pegar mal”. Em suma, pelos mais diferentes motivos, certos fatos históricos são considerados mais importantes que outros. Estes fatos tão especiais são comumente designados como marcos históricos.
A importância do conceito de marco histórico reside no fato dele ser interpretado como um símbolo do processo de transformação da sociedade, ou mesmo um evento que, por si, engendra uma série de mudanças. Na história geral do Ocidente, os grandes marcos históricos inauguraram novas eras da sociedade: a queda do Império Romano (em 476 d.C.) marca o fim da Antigüidade e o início da Idade Média; a queda da cidade de Constantinopla (1453) marca o início da Idade Moderna, que por sua vez termina em 1789 com a Revolução Francesa, dando início à Idade Contemporânea, período no qual talvez ainda façamos parte (afinal, cabe aos historiadores do futuro determinar o marco histórico que porá fim a esta Idade).
O conceito de marco histórico é fundamental para entendermos outro conceito-chave da historiografia, isto é, periodização. Ainda que passíveis de relativização, os períodos históricos demarcados pelos marcos constituem pontos de referência geral para compreensão de um determinado contexto histórico-geográfico. Ainda que diferenças substanciais possam ser constatadas entre a sociedade ocidental do início e do final da Idade Moderna, os quase três séculos e meio que constituem este período encerram características comuns no modo como esta sociedade funcionou e esteve organizada ao longo deste período de tempo.
Porém, seja um simples fato, seja um grande marco, é fundamental que estes tenham sua existência registrada. Sem isto, pode ser que eles sejam esquecidos, ou simplesmente desacreditados, pois em História tão importante quanto o ocorrido é a comprovação de que algo ocorreu, por meio de sua documentação. Sem o documento não há como conferir credibilidade a um fato, e é justamente a existência ou não de documentos – ou de quaisquer outros tipos de provas ou evidências – que estabelecem a fronteira entre o que é verídico ou inverídico, entre o que é história e o que é mito.
Os documentos podem estar relacionados a um determinado objeto/fato histórico das mais diversas maneiras. Uma certidão de nascimento, um extrato bancário, um e-mail, uma página de jornal, tudo o que, de uma maneira ou de outra, registre a existência de acontecimentos relacionados a um determinado objeto histórico pode ser entendido como documento. Eles constituem a base material da ciência histórica, pois é por meio deles que se obtém importantes informações, tais como datas, locais, nomes, ocorridos, etc.
Mas, por si, os documentos não dizem nada. Eles podem oferecer muitas informações, mas raramente trazem consigo tudo o que é necessário para a compreensão histórica. Em outras palavras, os documentos não são suficientes, pois eles precisam ser interpretados por alguém. Este alguém é ninguém menos que o contador da narrativa, isto é, o historiador, que fará sua interpretação baseado em preceitos, métodos e hábitos adquiridos em sua formação científica, moral e ética, aliado ainda ao seu repertório e erudição nos mais diferentes campos do conhecimento.
Por conta disto é que todo conhecimento histórico é necessariamente subjetivo, pois diferentes interpretações podem ser realizadas sobre um dado objeto histórico, mesmo que realizadas a partir da mesma base documental.
A música enquanto objeto histórico
A música é uma atividade necessariamente humana, derivada diretamente de ações feita por homens e mulheres que, por sua vez, são compreendidas apenas por seus semelhantes (desde que estes compartilhem os mesmos códigos e clichês de uma dada prática musical). Ainda que num momento de licença poética possamos falar da música da natureza e do canto dos pássaros, na prática trata-se de um entendimento que nós, humanos, damos ao produto sonoro de seres que em absoluto compartilham de nosso senso artístico (se durante o gorjear de um pássaro ouvimos uma doce melodia, para ele trata-se de uma questão fisiológica da qual pode estar dependendo sua sobrevivência).
Como boa parte das atividades humanas, a música no Ocidente é passível de ser historicizada, e assim tem sido feito desde o século XVII, quando se começou a redigir de forma mais sistemática as primeiras obras entendidas enquanto “história da música”. [2]
Quando pensamos em história da música enquanto um segmento historiográfico – isto é, como um tipo de produção científico-literária – é fundamental termos em mente que, via de regra, ela está embasada nos mesmos princípios que regem a história geral. Apesar da íntima relação da história da música com a história geral, há na primeira uma série de peculiaridades e pertinências que, por fim, fazem com que sua práxis seja desenvolvida a partir de processos bastante singulares, mesmo se comparado à história de outras artes, tal como a literatura e as artes plásticas em geral.
Estas peculiaridades existem por conta da natureza do objeto histórico em questão, isto é, a música e toda sua imaterialidade e efemeridade.
Fundamentos do pensamento histórico-musical [3]
Se por um lado existe um consenso de que o objeto da história da música é a própria música, pelo outro, como então podemos fazer a história de algo que é imaterial, invisível e que em questão de instantes simplesmente desaparece, sem deixar rastros concretos, isto é, enquanto conseqüência de sua existência enquanto som?
Como podemos aplicar em música os fundamentos em história geral expostos anteriormente? O que é um fato em história da música? O que é um marco em história da música? O que é um documento em história da música? Como é o processo de interpretação desses documentos?
Tomando a idéia de que na história da música seu objeto de estudo é a própria música, podemos concluir que um fato nada mais é que uma música que possa existir, no tempo presente, como tal. Isto é, não raro se tem notícia da existência de peças que não há como sabermos como soam, tal como é o caso de uma missa de réquiem que o compositor italiano Claudio Monteverdi supostamente escreveu: existe a notícia de sua composição e o registro de sua execução na Veneza seiscentista, mas de sua música não restou uma nota sequer. Isto é, faltou o tipo de documentação mais importante na história da música: a partitura.
Em vários aspectos o trabalho cotidiano de um historiador da música pode ser muito semelhante ao de um historiador tradicional, pois ambos entram em contato com documentos da mesma natureza: livros de registros, diários particulares, jornais, atas, leis, etc. Entretanto, o historiador da música em algum momento entrará em contato com este documento tão peculiar que é a partitura musical, e sua peculiaridade reside no fato dela não ser a música propriamente dita.
No caso da pintura um quadro é, ao mesmo tempo, o suporte e a própria obra. Na escultura, idem, e mesmo na literatura a impressão do texto é fisicamente a própria obra. Mas tal não ocorre com a música, pois a partitura é apenas um conjunto de instruções a partir do qual a música pode ser feita, mas efetivamente ela não “é” a música. Na melhor das hipóteses, a partitura é apenas a representação de uma imagem acústica, a partir da qual a música pode vir à tona.
Aqui chegamos à dupla interpretação que a partitura, enquanto documento histórico, necessariamente encerra. Uma é sua interpretação enquanto objeto histórico, a outra é aquela que os músicos fazem cada vez que se propõem a fazer música a partir de uma partitura. De certa forma, a própria performance musical não deixa de ser um complexo ato de interpretação ao mesmo tempo artística e histórica.
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Até este ponto compreendemos qual é a natureza do fato histórico-musical e de que forma a partitura, na condição de documento, revela-se fator primordial para a existência de uma obra musical (ao menos até o advento das mídias eletrônicas). Entretanto, vimos na história geral que dentre uma série de fatos, alguns poucos são mais relevantes que os demais, constituindo então os marcos históricos, conceito este também presente na história da música.É muito tentador entender o conceito de marco histórico na música pela mesma perspectiva da história geral. Mas é necessário tomar cuidado, pois se na história geral os marcos são definidos a partir da relevância que neles se constata como símbolo ou mesmo agentes de transformação da sociedade, em música as coisas não são bem assim.
Se de um lado temos como fato em história da música toda e qualquer peça que se possa ser reconstituída (isto é, tocada) como tal, pelo outro, o marco em história da música trata-se de uma peça a qual foi atribuída um valor que a destaca das outras. A partir deste momento a peça ganha status de obra.
Tradicionalmente, o que se considera um marco em história da música são as peças comumente designadas como obras-primas.
A principal peculiaridade do marco histórico em música é que ele é assim considerado a partir de um juízo de valor – por sua vez construído sobre valores estéticos – presente em uma determinada prática musical e seu contexto sócio-cultural. Ao contrário dos marcos em história geral, nem sempre é possível constatar que uma obra tenha realmente sido um elemento de transformação de toda uma práxis musical. Pelo contrário, o estudo pormenorizado da história da música revela que são raras as peças que trazem consigo o mesmo poder transformador de uma “Queda do Império Romano” ou de uma “Revolução Francesa” da história da música.
Mas tal como na história da geral, a série de marcos históricos/obras-primas que integram a história da música constituem um todo que será a base para o desenvolvimento e aprofundamento de um repertório, de onde pode inclusive emergir novos marcos que passaram despercebidos anteriormente.
A isto se dá o nome de cânone, isto é, um conjunto de obras-primas que se revela alicerce de uma determinada prática ou tradição artística. [4] Em música, o cânone é presença constante em seu cotidiano, seja lá qual for o estilo ao qual se dedique. É o cânone musical que determina o plano de estudo de um instrumentista ou cantor. É ele que determinará as influências e referências de um compositor. É o cânone musical que se faz presente durante a programação de uma temporada de concertos ou de uma casa de shows. É o cânone musical que traz à luz os nomes dos compositores que, por conta de suas peças consideradas obras-primas, terão seu lugar garantido no “panteão dos grandes compositores”.
É a partir da própria organização intrínseca dos diferentes cânones musicais que a própria periodização da história da música é realizada. Isto é, se hoje em dia há um consenso em dividir a história da música ocidental em seis períodos (Idade Média, Renascimento, Barroco, Classicismo, Romantismo e Era Moderna) isto ocorre devido às semelhanças estilísticas presentes em diferentes obras canônicas.
Pensando e fazendo música historicamente
Conscientemente ou inconscientemente, a atitude histórica é parte integrante do músico ocidental. Seja qual for o estilo ao qual se dedique, toda e qualquer atividade musical está necessariamente alicerçada em conhecimentos que são, em si, mais do que históricos: são História propriamente dita, porém, sendo constantemente reinterpretada à luz da estética musical de um dado período. Com tamanha pluralidade de estilos, ritmos e funções, torna-se mesmo pertinente considerarmos a história da música não mais em sua forma no singular, mas sim como algo plural e heterogêneo, de forma a abarcar o máximo possível toda a incrível gama de manifestações artísticas que a humanidade tem desenvolvido através dos tempos por meio da música.
Notas
[1] VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Brasília: Editora da UnB, 1982, cap. 2.
[2] Para um estudo aprofundado sobre a história das histórias da música ver: ALLEN, Warren Dwight. Philosophies of music history: a study of general histories of music 1600-1960. New York: Dover, 1962.
[3] Alguns conceitos aqui trabalhados são desenvolvidos a partir do fundamental trabalho musicológico de Carl Dahlhaus. Para um estudo específico sobre a historiografia da música ver: DAHLHAUS, Carl. Fundamentos de la historia de la musica. Barcelona: Gedisa, 1997.
[4] Na literatura ocidental, o conceito de cânone é profundamente trabalhado pelo crítico literário norte-americano Harold Bloom. Para um estudo aprofundado sobre o assunto ver: BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 1994.
Para citar este texto:
MARTINELLI, Leonardo. A história, a música e os músicos: uma introdução ao pensamento histórico-musical. In: www.outramusica.org, acessado em ????